Um ídolo e um exemplo. Aos 41 anos, Emerson Ferretti já não é o camisa 1 de defesas milagrosas, mas segue como um modelo para milhões de jovens. Campeão da Copa do Brasil de 1999, do Campeonato do Nordeste de 2001, e bicampeão baiano em 2001 e 2007, Emerson é presidente do Ypiranga, um dos mais tradicionais clubes do futebol baiano. Desde 2009, a missão do ex-goleiro de Grêmio, Flamengo, Juventude, Vitória e ídolo do Bahia é reerguer um dos mais vitoriosos times do estado.
Em campo, ele se tornou o defensor que mais vezes vestiu a camisa 1 do Tricolor baiano. No clube, ele fez uma das maiores sequências de atuações de goleiros do Brasil: 256 partidas seguidas como titular. No entanto, desde cedo Emerson sempre manteve a cabeça nos estudos. Ainda muito jovem, o jogador entendeu que a maioria dos garotos da base não chegaria ao profissional.
Apesar da dedicação à escola, o potencial do goleiro falou alto e, ainda na base, ele chegou às seleções brasileiras de categorias inferiores. O que não impediu que Emerson passasse no vestibular aos 17 anos.
Na série de reportagens em que analisa a relação entre a escola e as divisões de base dos clubes baianos, o GLOBOESPORTE.COM publica uma entrevista com o goleiro que fez história nos campos e nunca deixou de escrever a sua própria fora das quatro linhas.
Você teve uma carreira longa no futebol, mas nunca deixou de se dedicar aos estudos. Como foi ser atleta e, ao mesmo tempo, uma pessoa que sempre esteve ligada ao conhecimento?
O que facilitou estar ligado ao conhecimento durante minha carreira como atleta foi o fato de eu gostar de estudar, o que é a exceção à regra, infelizmente. A maioria dos atletas não gosta e, devido às dificuldades de conciliar estudo e carreira, acabam deixando os estudos completamente. Por gostar de estudar, eu contratava professores particulares para ter aula de inglês e francês em alguns clubes pelos quais passei, já que os contratos eram curtos e eu não poderia ir à faculdade. Mas não deixava de estudar. Aproveitava também o tempo livre nas concentrações para ler bastante, outra atividade de que sempre gostei. Quando chegou perto do fim da carreira e tinha certeza de que ficaria em Salvador, fiz vestibular e reiniciei os estudos no Ensino Superior para ter uma formação acadêmica. A compreensão dos clubes (Bahia e Vitória) na época foi muito importante. Voltei a fazer faculdade em 2005 e parei de jogar em 2007. Me formei em 2009.
Para se formar, Emerson Ferretti estudava à noite, depois dos treinos (Foto: Arquivo pessoal)
Na época da base, como era sua rotina? Do que você teve que abrir mão?
Minha rotina era de treino e estudo, sempre. Teve época em que eu estudava pela manhã e treinava à tarde, e também época em que deixava o dia livre para treinos e estudava à noite. Por muitas vezes, abria mão do tempo em que poderia estar com os amigos me divertindo.
Você chegou a concluir o Ensino Médio antes de virar profissional?
Concluí o Ensino Médio com 17 anos e logo entrei na faculdade de Administração. Assinei contrato profissional com 19 anos (na época ainda tinha a Lei do Passe, e só assinávamos como profissional após idade de júnior, 20 anos). Quando entrei pela primeira vez como titular do Grêmio, com 20 anos, e fiquei jogando, tomei a decisão de priorizar a carreira de atleta e abandonar a faculdade sem concluir o curso, até poder retomar.
E o período do vestibular, como foi?
Fiz vestibular com 17 anos. Foi tranquilo, porque ainda não tinha a exigência de um jogador profissional.
O seu clube formador, no caso o Grêmio, apoiava que os garotos se dedicassem à escola? Como era o processo lá?
No meu caso, eles me apoiaram. Fiz um acordo com o Grêmio, e o clube pagava minha faculdade. Isso aconteceu até assinar o contrato profissional.
E que importância os estudos tiveram para sua carreira, agora como dirigente?
Aprendi muita coisa que só sentado em uma carteira de faculdade poderia aprender, e isto tem me ajudado muito neste desafio de comandar um clube de futebol.
Emerson Ferretti agora é presidente do Ypiranga-BA
(Foto: Reprodução/TV Bahia)
Você sempre destacou que a base é uma grande loteria, onde pouca gente vai ser aproveitada no profissional. O clube que você preside, o Ypiranga, tem essa preocupação com as crianças da divisão de base? Como isso funciona?
Temos a preocupação de mostrar para os garotos que o estudo é muito importante, independente de eles se tornarem atletas profissionais. Dentro do possível, fazemos um monitoramento, mas as limitações ainda não permitem que o clube dê o apoio que é considerado ideal.
Como ídolo de Bahia e Vitória e outras torcidas do futebol brasileiro, que tipo de mensagem você passaria para os jovens que dividem seus esforços entre o sonho de jogar futebol e os estudos?
A busca pela realização dos sonhos é válida, mas não se pode esquecer de outros aspectos importantes na vida, entre eles o estudo. Este será de grande utilidade. Mesmo se eles se tornarem grandes jogadores, vai auxiliá-los na carreira e, principalmente, na vida.
Desde a última segunda-feira, o GLOBOESPORTE.COM publica uma série com cinco reportagens sobre a relação da escola com Bahia e Vitória, os principais clubes baianos. Nesta quinta-feira, você acompanha a história de Lucas Fonseca, o zagueiro que adiou sua carreira no futebol profissional para se formar em um curso universitário.
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